Antunes era um gamer ortodoxo. Sua barriga saliente denotava um estilo sedentário, típico dos rapazes de comum interesse. Claro, haviam os que exibiam os seus corpos estilo Alazão, porém o senso comum mostra que as habilidades físicas não são o forte dos semelhantes de Antunes. No auge de seus vinte e cinco anos, o rapaz exercia atividades trabalhísticas com uma finalidade específica: polígonos e texturas em forma de armas e pessoas. A cada mês, algumas centenas de reais de seu escasso salário iam para o bolso das produtoras norte-americanas e japonesas, visto que Antunes consumia apenas produtos legalizados. Nada de jogos piratas. Apenas originais, e comprados em lojas brasileiras, para ajudar o mercado. Nada de importar pelo mercado cinza. Sua vida social se restringia a conversas com meros desconhecidos via seu headset e troca de mensagens pelo correio eletrônico de seu Wii.

Por ser um gamer ortodoxo, torceu o nariz ao comprar o Wii; só o fez por força maior, já que sua família condenava o seu uso abusivo dos eletrônicos. A solução perfeita para os seus problemas custaria apenas duzentos e cinquenta dólares, mas a sua política de compra o fez despender de quase dois mil reais. Porém, se a dor de cabeça fosse curada, valeria o esforço. No momento em que o console foi ligado na sala de estar de sua casa, suas irmãs e mãe abriram um sorriso fenomenal, aprovando no ato a compra do “brinquedo”. Logo em seguida, Antunes se viu livre para poder efetuar a compra dos novos mapas de Halo 3 no seu xodó, o Xbox 360. Por sete horas consecutivas, matou e foi morto no ambiente virtual. Sua glória seria eterna.

No dia seguinte, acordou perturbado devido às poucas horas de sono. A sensação era de ressaca e ele sabia disso, apesar de nunca ter bebido na vida. Antunes batia cartão todos os dias às oito da manhã, porém havia três semanas em que chegava consideravelmente atrasado, algo em torno de uma hora. Sua fascinação pelos personagens carismáticos estava interferindo em sua vida física, principalmente após a compra de Smash Bros. Brawl. Estava difícil conciliar a jogatina com Halo 3, e para não perder habilidade em ambos, resolveu aumentar o expediente gamístico. Ao adentrar o recinto em que juntava recursos para a compra de novos jogos, o seu superior o abordou de forma incisiva e bradou, em meio a papéis, planilhas e funcionários desgostosos: “Estou estupefato com tamanho descaso! Retire-se daqui e nunca mais volte, ó crápula irresponsável! Abutre inconseqüente!”

Antunes, parado diante de seu modesto computador, levantou seus olhos em direção ao seu chefe e suou frio. Não se importava em com os xingamentos. Não dava bola para o que os outros ao seu redor pensassem. Apenas entrou em desespero. Sua fascinação por jogos o fazia encomendar de três a quatro deles mensalmente, sem contar com os que comprava online, tanto no Wii quanto no 360. Já tinha concluído cada jogo baixado no Virtual Console e, para piorar, a sua conta na Live expiraria em duas semanas. Por fazer parte de uma família com recursos modestos, não poderia requisitar ajuda por parte de seus parentes e, mesmo que o fizesse, nada receberia além de dores no ouvido e desconforto.

Sua sentença de morte já estava anunciada. Não havia pago pela sua cópia de Brawl e tinha comprado GTA IV e Mario Kart. Para piorar, o interesse da família por Wii Sports começava a se esvair; todos já conseguiram status “PRO” em cada esporte. Para reavivar a chama nintendista na família, tinha comprado também uma cópia de Wii Fit e três volantes extras para Mario Kart. Ou seja, estava chafurdado em dívidas e era tarde demais para retroceder. Ele tinha de encontrar um jeito de se desvincilhar de tamanha furada. Tentou convencer o seu chefe a dar uma nova chance a ele, provou por A + B que seguiria à risca as normas e horários da empresa, mas foi tudo em vão. O desespero era visível em seu semblante, e nada conseguiu a não ser pena e desprezo. Era a criatura mais medíocre do planeta naquele momento. Nem os seus constantes headshots múltiplos em Halo 3 o fariam retomar a honra. A sanindade de Antunes ao pouco foi desfalecendo, fazendo-o perder a razão. As veias em sua testa tomavam proporções descomunais. Perdeu o controle – e não o de seus consoles, para infortúnio do nosso herói.

Saiu do business center em que se encontrava, avançou pelas ruas da megalópole em decomposição e arrancou suas vestimentas superiores. Com trapos rasgados presos precariamente em seus braços e pescoço, não sabia mais o que faria. Uma miríade de possibilidades gamísticas de desfizeram em sua mente e passaria por um período negro em sua vida nerd. Por mais que conseguisse um novo emprego, isto não aconteceria imediatamente. Antunes perderia uma época dourada na nova geração dos consoles. Ele poderia jogar mais adiante, mas ele queria exclusividade. Encomendou com antecedência os jogos supra-citados e pagou caro por isso. Sua dívida se tornaria cada vez maior, mas então ele não se deixou sucumbir aos impropérios do mundo capitalista. Ele decidiu incorporar todo o seu conhecimento gamístico e fazer a justiça com as próprias mãos.

Lembrou-se da Master Sword, espada lendária utilizada nos jogos da franquia Zelda e se dirigiu ao supermercado mais próximo. Deslocou-se até a parte mais distante do estabelecimento e saiu à procura de um artefato peculiar, que o ajudaria a reconquistar o que havia acabado de perder. Empunhou o primeiro espeto de churrasco que encontrou e correu. Invadiu recintos comerciais, abordou transeuntes aleatórios, violou propriedades. Sua loucura o levou a tal ponto em que, em questão de trinta minutos, não portava mais um reles espeto de churrasco e sim uma tímida porém mortal moto-serra, após assaltar uma loja de jardinagem. Agora era um ser perigoso. Deixou de ser um ladrãozinho de rua para se tornar temido no centro da cidade. Não distinguia homens de mulheres, crianças de aleijados. Quem não sucumbisse à sua abordagem criminosa seria mutilado, assim como eram os pobres locusts de seu Gears of War. As ruas tomaram um aspecto de barbárie, com pessoas desesperadas e carnificina descontrolada. O olhar no rosto de Antunes era o de um maníaco sedento por sangue. Roubava carros e se dirigia a pedestres inocentes, ignorando as leis de trânsito e o bom senso. Vivia intensamente cada segundo. Personificava o pior do mundo dos videogames. Matava por prazer.

Em poucos minutos tudo quanto é tipo de força armada estava à caça do outrora pacífico nerd. Ruas eram interditadas e evacuadas. Reporteres destemidos e loucos por uma história digna de ascenção salarial se amontoavam a cada esquina para registrar as cenas grotescas. Até que, ironicamente, foi acertado com um head-shot por um atirador de elite. Antunes, que se gabava e cometia teabags a cada acerto na cabeça de seus inimigos, estava morto. Na vida real. Sem direito a continues.
Durante as investigações, a polícia encontrou centenas de títulos de jogos em sua residência. Logo a mídia de massa atribuiu o fascínio de Antunes aos jogos com suas atrocidades. Dezenas de programas informativos e sensacionalistas condenaram o novo mal do século 21, tal qual padres e mães de família que buscam achar um bode expiatório para a sua performance pífia e medíocre. Gamers e blogueiros protestavam pelo motivo contrário  e GTA IV teve a sua procura intensificada diante da popularização dos fatos.

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