paris.gifA vida é feita de vários momentos. Existem os momentos de vitória, alegria exacerbada, derrota, depressão profunda, orgasmo e muito mais. No meu caso, grande parte dos momentos são vergonhosos. Até o final do ano passado, pelo menos uma vez por dia eu tinha uns minutos reservados para passar por alguma situação embaraçosa (hoje isso diminuiu um pouco, mas acho que é reflexo das férias). É sempre alguém que te menospreza na frente dos outros, um tropeço em seus próprios pés ao descer as escadas do shopping, alguma questão proferida em público pelo professor “se achão” da faculdade e que você obviamente não sabe a resposta ou até o clássico “você é um inútil” dito pelo chefe em frente a toda a equipe. São essas pequeninas coisas da vida que nos fazem ter a auto-estima baixa. Mas para mim isso tem dois lados bons:
– deve ser por isso que eu acho o seriado Seinfeld TÃO engraçado;
– tenho historietas para contar neste blógue.


Um belo dia, o Lucas comunicou que iria passar um feriado qualquer na praia com a sua patroa. Ele, que havia há pouco tempo comprado Halo 3, deixaria o seu Xbox ao relento, tomando poeira e com a possibilidade de ser roubado. Claro que eu pensei no bem do pobre console e arrisquei pedir o brinquedo emprestado, sem esperanças de usufruí-lo. Para meu total espanto ele não só emprestou sem pestanejar como também ofereceu emprestado o seu novíssimo monitor LCD. Logicamente que me borrei todo e acabei recusando o monitor, pois se o estragasse perderia a chance de comprar os meus sei-lá-quantos-jogos posteriores.

“Ótimo”, pensei.

Parte de meu fim de semana estava garantido agora. Passaria horas terminando a luta, bebendo cerveja e batendo na namorada. Ok, a última parte é mentira. Em mulher não se bate nem com um pênis de borracha uma rosa. Momentos inesquecíveis estariam prestes a acontecer ao lado de Master Chief, Árbitro e cia., mas isso teria um preço. Era um chuvoso sábado a tarde, daqueles em que você só se empenha de se arrumar caso haja algum bom motivo. Ir na casa do Lucas para buscar um videogame não era um deles, obviamente. Parti para a residência do magricelo sem nenhum preparo vaidoso: cabelo desarrumado, camisa surrada, suvaco catinguento, havaianas sujas e bermuda de dormir. Na real, em outrora a bermuda em questão tinha outro propósito, que era o do banho nos oceanos deste imenso litoral brasileiro. Mas o tempo e o uso o deixaram impróprio para utilizá-lo como indumentária fora dos aposentos de minha casa. Até a cordinha da bermuda já havia sido perdida, deixando-a levemente frouxa mesmo na minha esquelética esbelta cintura. Resumindo, nem sob a mira de um três-oitão que eu tomaria banho e colocaria uma roupa decente só para poder pegar uma caixa gigantesca que iria arruinar o design desarrumado da minha sala de estar, além de super-aquecer o meu lar, causando um prejuízo de 500 reais para o conserto do condicionador de ar, inutilizável após tentar resfriar o ambiente pós-apocalíptico criado pelos processadores do 360.
Ok, essa parte também foi mentira.

Ao chegar no meu destino, aguardei alguns momentos para o dono do console terminar de jogar e consequentemente guardar a aparelhagem. O 360 não é exatamente pequeno e
compacto como um Wii e para guardá-lo com cuidado a fim de evitar danos desnecessários à estrutura externa do brinquedo, o Lucas guardou na caixa original do Elite Black. Como existem periféricos extras como controle, jogos e etc., foi fornecido uma bolsa extra para carregá-los em segurança. Para completar o time de hardware, havia ainda o glorioso Billy – o Estabilizador, levado avulsamente sem o auxílio de nenhuma bolsa ou similares. Nota: sacaram? Billy – EstaBILLYzador. Háá!

godzilla.gifTudo pronto e lá fui eu. A primeira parte da missão estava concluída. Só restava voltar em segurança para casa e instalar o aquecimento-global-em-miniatura. A chuva caía de uma forma espetacularmente forte, de uma forma vista apenas no filme do Godzilla. Sim, aquela pérola que se passa em Nova Iórque. Segurei com emoção a caixa quadrada, junto com a bolsa extra e o Billy em cima. Todo equilíbrio era pouco agora, já que eu não tinha domínio total sobre o consideravelmente grande estabilizador. Como em Mercury Meltdown Revolution, qualquer “tilteada” mais irresponsável na caixa poderia levar o aparelho e se espatifar no chão dos corredores do prédio, causando transtorno tanto a mim quanto aos moradores, que iriam ouvir um belo estrondo reverberar em seus lares. E ainda havia o fio da tomada do Billy, comportando-se como um fio-de-luz solto no chão em algum filme de terror, rebatendo-se para lá e para cá como se tivesse vida própria. Sem contar que a má administração do mesmo poderia acarretar até em morte e desabamento do prédio, caso o fio ficasse para fora do elevador e ele caísse por ter o seu funcionamento comprometido de alguma forma bizarra. O elevador cairia e o dano seria tamanho que as
bases de sustentação do edifício cederiam, causando a morte instantânea de dezenas de famílias, incluindo recéns-nascidos, velhinhos enfermos, gatinhos de estimação e praticantes de sexo fecal. Coprofilia, para os não-familiarizados.

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O carro utilizado na peregrinação se encontrava estacionado na rua e não em um local seguro, logo a essa altura ele já estava completamente ensopado pela quantidade estúpida de água e fezes humanas que evaporaram e condensaram novamente. Com um pouco de sacrifício percorri o pequeno-porém-longo caminho entre a porta do prédio e a porta do carro. Em questão de 12 segundos eu já nem precisava mais me banhar em casa, tamanha a quantitade de água despejada sob a minha cabeça. A viajem de retorno tinha sido tranquila.

Ao chegar em casa, estacionei o carro em uma garagem segura em relação a chuva. As vagas não são individuais e sim daquelas coletivas (meio óbvio, certo?). Mais uma vez eu iria fazer contorcionismo para levar para cima todo o conteúdo em segurança. Moro no último andar de meu prédio, que não possui elevadores. Quatro andares de tensão e sofrimento. Não é fácil levar tudo de uma vez, oras! “Ah, porque não fez em duas viagens então?”, você deve pensar. Eu me peido todo pra levar de uma vez só mas não vou duas vezes. Não sei se isso é determinação e esforço ou simplesmente pura preguiça. Todos os itens estavam OK, mas desta vez tínhamos alguns apetrechos a mais. Seriam eles: chave do carro, chave de casa, carteira, celular e radio do carro. Tudo isso sem muitos bolsos e sem espaço extra. Lá fui eu.

Com muito esforço consegui segurar a caixa, bolsa e estabilizador. Após dominar as feras, teria um trabalho árduo: fechar o carro em segurança e abrir as portas que viriam a seguir. Com as duas mãos ocupadas, tive de fazer malabarismo em praticamente todo o caminho, fechando o carro com as nádegas e coisas do tipo. O problema foi que após estar fora do carro, deixei uma das chaves cair. A minha afobação para jogar Halo 3 era tamanha que ao invés de colocar o videogame em algum porto seguro, juntar a chave e prosseguir normalmente, eu fui inventar de pegar a chave segurando tudo o que tinha em mãos, abaixando-me e tudo. Porém isso não foi o problema.

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Lembram o que eu disse sobre a bermuda? Ela é de uso caseiro apenas e qualquer tentativa de utilização externa pode vir a causar constrangimentos, e não deu outra. Por estar sem o cordão que serve como cinta (ou cinto, dependendo do lugar onde você está), não havia a garantia de a bermuda permanecer grudada ao meu corpanzil esbelto. Ainda mais com um celular e carteira em um de seus bolsos. Pode parecer pouco, mas este peso extra fez toda a diferença nos minutos a seguir. No dado momento em que decidi me abaixar para pegar a chave de casa, comecei a sentir o naufrágio de minha bermuda. Ela ia deslizando pouco a pouco, como se tivesse chocado com um iceberg no meio do atlântico em 1912. E posso te dizer com certeza, meu amigo, que não é para qualquer um segurar uma caixa de médio porte com uma bolsa e o Billy em cima, juntamente com as calças. E enquanto me abaixo. Tudo bem, não haviam transeuntes nas proximidades, não? Obviamente que sim. Tudo aconteceu ao mesmo tempo, como se fosse um episódio de 24 horas. No momento em que as chaves caíam no chão, juntamente com a minha bermuda, ouvia a porta do hall ser aberta lentamente, para o meu desespero. Tratei de agilizar o meu processo de resgate pela bermuda antes que mais vítimas fossem atingidas. Com sorte a pessoa em questão tomaria o caminho oposto ao que me encontrava. Mais uma vez é obvio que isso não aconteceu. E para piorar era bem a dona do carro AO LADO do meu. A dona era uma senhora de uns 60 anos, moradora do segundo andar. Imaginem o que ela deve ter pensado ao ver um rapaz magricela abaixado do lado da entrada de seu carro com um monte de caixas no colo e com as calças abaixadas. Ela parou do meu lado e ficou observando com uma expressão que eu nem sei descrever. Não era vergonha, não era risadas, não era espanto. Devia ser pena ou asco, não sei. Só sei que eu não conseguia levantar. Minha cueca estava exposta, juntamente com a minha coxa fina, branquela e peluda. A bermuda quase nos joelhos. Estava de cócoras e a única coisa que me veio na hora foi estender a bolsa perguntar à senhora: “Segura pra mim?” Com isso, pude levantar e seguir o meu caminho sem olhar para trás, apenas me contorcendo todo para não fazer a bermuda cair novamente.

george1.gifNa subida mais alguém passou por mim, mas com sorte pude me preparar com antecedência ao ouvir os passos ecoando nos corredores. Lógico que em meia hora já havia esquecido o acontecimento e vocês sabem o motivo. Já faz alguns meses desde essa vergonheira, mas por sorte não topei de novo com a senhora.

George Costanza se orgulharia de mim. Já Master Chief…

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